domingo, 14 de fevereiro de 2016

Prioridade

Eu tinha acabado de acordar quando o telefone tocou. Tinha tido uma daquelas noites longas e super divertidas das quais a gente se arrepende no dia seguinte. Estava tentando curar a ressaca com mais bebida quando peguei no sono, mais ou menos uma hora antes de ela ligar. Acordei ainda confuso, querendo água, e fui interrompido pelo toque e o nome dela na tela. Não falei mais que dez palavras e não esperei mais que dois minutos para vê-la na minha porta. Até por baixo da leve mancha de rímel ela estava linda. Os olhos dela, que já eram pequenos, estavam inchados e, por isso, quase não dava pra ver aquelas pupilas verde escuras que eu tanto adorava encarar. O batom vermelho começava a sumir nos lábios, notável apenas em algumas partes. O cabelo estava solto ao natural, ao contrário do que ela fez da única vez que a gente saiu oficialmente, quando estava mais comprido e caía em uma trança de lado. Uma parte de mim se perguntou se ele já tinha expressado preferência pelo cabelo solto, pra ela usá-lo assim, ou se eu tinha sido especial de alguma maneira. Ela também variou na roupa. Comigo, era sempre um vestido ou uma saia. À minha porta, ela vestia uma calça jeans detonada, uma blusa preta de renda que mostrava mais do que era saudável para minha sanidade e uma mini-bota com salto baixinho, que já a deixava mais alta que eu.
Estava linda.
Mais do que o normal.
Fiquei refletindo que tipo de babaca deixaria uma mulher daquelas sozinha, esperando por ele, em plena pedra do Arpoador. Céus, que tipo de imbecil o faria em qualquer lugar do mundo? Aquelas unhas vermelhas recém-feitas e aquele perfume que mudava sempre, quem seria burro o suficiente para dizer não àquilo? Não que eu estivesse disposto a me comprometer, e ela sabia disso, mas eu jamais deixaria de lado um momento com aquela mulher, por mais breve e passageiro que ele fosse, como deveria ser. Xinguei mentalmente a minha natureza e a dela, por não combinarem, e ofendi principalmente o mentecapto que a deixou tão abalada naquela noite. Uma pequena parcela minha, no entanto, agradeceu a ele por ter sido a razão de eu ter aquela vista maravilhosa bem à minha frente naquele momento.
Antes de puxá-la para um beijo que evoluiria para muito mais, soltei - sem nem perceber - um discreto "uau".

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