domingo, 14 de fevereiro de 2016

Substituto

Respirei fundo pela milésima vez naquele minuto e puxei o celular do bolso pelo que também parecia ser a milésima vez. Sabia o que estava prestes a fazer, e sabia que não era certo. Não me importava mais, no entanto. Corri o dedo pela agenda de contatos e parei no nome que martelava na minha cabeça. Ele não demorou a atender.
- Hanna? - Ele parecia confuso, talvez um pouco sonolento, com certeza com ressaca, apesar de já passar das oito da noite. Bêbado, talvez, concluí. - Tudo bem?
- Você tá em casa? - Disparei a falar. - Eu ia encontrar uma pessoa no Arpoador e... E ele não apareceu. E eu não sabia o que fazer e não podia voltar pra casa. É a primeira vez que o meu pai sabe que eu estava indo encontrar alguém, entende? É a primeira vez que eu achei que era importante o suficiente pra ele saber. E aí a criatura não apareceu. - Já sentia as lágrimas escorrendo, e a voz começava a ficar atrapalhada. - Eu fiquei esperando mais de uma hora em frente a pedra, mandei mensagem, liguei e nada dele. Ele realmente me deu um bolo! E eu não tô em condição nenhuma de voltar pra casa, não dá. Então eu tava andando pela orla, tentando decidir o que fazer, e eu vi a sua rua. E eu meio que reconheci o seu prédio e agora eu tô aqui em frente a ele parada que nem uma idiota, com a maquiagem borrada e arrumada demais pra não ser vista por ninguém. Quero dizer, óbvio que um monte de gente na rua tá me vendo, inclusive me vendo passar esse vexame, mas eu me arrumei mesmo, sabe? Eu achei que ele valia a pena. E eu já estava imaginando uma expressão surpresa quando ele olhasse pra mim, talvez até um "uau" e um segundinho de perplexidade, mais ou menos como você fazia, lembra? A gente nunca prestou junto, mas sempre soube se valorizar, né? A gente sempre gostou de olhar um pro outro, e eu tô precisando de alguém que goste de olhar pra mim agora. Talvez um pouco mais que olhar, não sei, mas olhar com certeza. É difícil tomar bolo, sabia? A gente se sente um lixo. - Me interrompi por um segundo, respirei e limpei as lágrimas. - E eu realmente queria saber se você tá em casa.
- Tô ligando pra portaria, sobe.

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