Acordei naquela manhã de uma forma diferente. Já estava acostumado a acordar ao lado de rostos diferentes, corpos diferentes, cheiros diferentes, vozes diferentes. Isso já era rotina. O inovador, naquele dia, era o jeito pelo qual fui acordado. Em vez de escutar o barulho usual do despertador, senti uma carícia leve no cabelo que me tirou com toda a delicadeza dos braços de Morfeu. O carinho saiu do couro cabeludo e se direcionou à minha barba, fazendo com que eu instantaneamente despertasse da forma mais agradável. Um alarme disparou em meu cérebro, para compensar o que não tinha dispadado no meu celular.
- Dormi demais? Não ouvi o despertador tocar? Tô atrasado? - Ainda não tinha aberto os olhos. Uma parte de mim ficou procurando possíveis motivos para a falha do meu pior inimigo de todas as manhãs.
- Relaxa - eu ouvi a voz dela e a noite anterior me voltou à mente. Morri de saudades, mesmo tendo-a ao meu lado. - Eu acordei uns dois minutos antes do despertador, vi o aviso de que já ia tocar piscando na tela e resolvi desligar porque ninguém merece ser alarmado com uns estrondos daqueles sem necessidade. - A voz dela ainda denunciava um resquício de preguiça, mas ela parecia bem mais acordada que eu. Abri os olhos e percebi que ela sorria pra mim ao meu lado na cama. Percebi, finalmente, que eu também estava sorrindo.
- Obrigado. - Estendi a mão para alcançar o cabelo dela, também. Ela riu de levinho quando errei a mira e quase coloquei o dedo indicador dentro do olho dela. Pegou minha mão e deu um beijo nela.
- Melhor eu ir, né? - Começou a se levantar. - Hoje só trabalho à tarde, mas se o despertador tava programado pra tão cedo, você deve ter coisas importantes pra fazer.
- Tentei puxá-la mais pra perto, mas os reflexos de recém-acordada dela eram bem mais rápidos que os meus. Ela já estava colocando de volta o vestido da noite anterior.
- Tenho, sim. - Concluí. - Mas primeiro vem cá, eu fecho pra você.
Ela deu a volta na cama e sentou na beirada para que eu pudesse subir o zíper. Ignorei a lógica e me aproximei da pele dela, sentindo o cheiro que me embalou a noite inteira. Beijei suas costas, onde o zíper deveria subir.
- Não vale. - Ela suspirou. - Assim eu não vou conseguir ir embora e te deixar em paz.
Eu não queria que ela fosse embora. Era até verdade que com ela ali, a última coisa que eu teria era paz. Mas quem disse que eu ligava?
- Mas esse, meu bem, é exatamente o objetivo.
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