segunda-feira, 16 de maio de 2016

Âncora

Ela é minha âncora. Não importa por onde ou em que sentido, é sempre por ela que procuro para me manter firme à terra. Ela me guia e me conduz como se soubesse exatamente o que fazer a todo momento, e eu desconfio que ela saiba, de fato. Houve um tempo em que eu não tinha certeza de nada além do sorriso dela ao meu lado todas as manhãs, e foi essa certeza que me manteve acima da superfície enquanto tudo ao meu redor parecia afundar em um oceano de desespero.
Lembro-me bem da primeira vez em que ela salvou a minha vida – em muitos sentidos diferentes. Eu estava embriagado, sentado ao balcão de um bar, xingando a tudo e a todos que me cercavam. Nem mesmo bartender tinha mais paciência comigo, àquela altura. Ele simplesmente revirava os olhos e enchia meu copo com mais uma dose a cada vez que eu pedia – já tinha desistido de tentar me convencer a parar antes de alcançar meu limite. Estava claro para qualquer um que eu já o tinha alcançado – e ultrapassado – há muito tempo.
Ela estava passando pelo lado de fora do estabelecimento quando eu a vi pela primeira vez. Os cabelos vermelhos combinavam com o vestido de mangas compridas, quente demais para aquele dia de verão. O sol batia no rosto dela, e só então eu percebi que já tinha amanhecido. Eu já a tinha visto em algum lugar. Meus sonhos, cogitei, mas acreditava ser mais do que isso. Percebi que estava certo quando ela retribuiu meu olhar e, ao me reconhecer, resolveu entrar no bar. Fiquei consciente, de repente, do meu estado. Eu não estava apresentável, provavelmente fedia a cerveja e sem dúvidas tinha uma expressão de derrota no olhar.
- Pedro? – Ela se aproximou, e a voz dela era o único som que não me fazia querer bater a cabeça na parede repetidamente até o mundo ao meu redor se calar. – Achei que você estivesse com os meninos... Eu estava indo para lá, para o aniversário do Gabriel. Você não vem?
Eu não me lembrava do aniversário do Gabriel. Arrisco até dizer que, naquele momento, eu não lembrava nem quem era o Gabriel, apesar de conhecê-lo, basicamente, desde que nasci, e de ele ser um dos meus amigos mais próximos. Mas o Gabriel entenderia se eu não aparecesse. Ele sabia como a minha vida estava de cabeça para baixo. Com tudo de pernas para o ar. Eu estava no fundo do poço, e se alguém tinha a obrigação de compreender isso, esse alguém era meu melhor amigo.
- Eu não estou muito em condições de ir. – Ri da minha própria desgraça, menos consciente do quanto eu a estaria assustando. Ainda não lembrava o nome dela e nem de onde a conhecia, mas se ela era amiga do Gabriel, isso já deveria bastar para mim.
- Eu percebi. – Ela ruborizou. Eu achava que as pessoas só faziam isso em livros, filmes e histórias em quadrinhos. Nunca tinha conhecido ninguém que ruborizasse na vida real. Quis guardar aquela imagem na memória, e lembro que fiquei morrendo de medo do álcool apagá-la. – Aliás, você está com uma cara péssima, mesmo. Mas eu sei o que pode ajudar. Vem comigo.
Não sei o que a levou a fazer aquilo, mas sou grato até hoje por ela ter feito. Em um ímpeto, ela pagou minha conta (com uma gorjeta generosa ao bartender, eu reparei, o que o fez agradecer bastante), me puxou pelo braço e me tirou do bar escuro. A luz do sol machucou meus olhos e ela riu da careta que eu fiz.
- Pra onde você vai me levar? – Consegui perguntar, mesmo atormentado pelo excesso de luz.
- Se eu te contar, perde a graça.
Quando dei por mim, estávamos juntos em um carro, ela ao volante e eu com a cabeça apoiada na janela do passageiro. Ela já estava quase estacionando ao lado de um campo extenso de margaridas que eu nunca nem soube que existia. As flores pareciam gritar pelo contraste do amarelo com o azul do céu. Eu não via nada além da natureza, eu não sentia nada além da paz que o lugar transmitia.
E, claro, eu a via. Ela, em todo o esplendor de seu vestido vermelho. Ela me puxou pelo braço e me guiou até uma clareira, onde sentamos e conversamos sobre a vida. Ela fez tudo parecer mais fácil. Ela fez com que eu visse sentido, visse uma saída de todos os meus problemas. Ela me apresentou a luz no fim do túnel. Uma luz fluorescente...

Foi quando eu percebi que ela não existia. Nada daquilo era real. Abri os olhos lentamente, a cabeça latejando por causa do excesso de bebida. A luz fluorescente era uma lâmpada. Demorei a entender o ambiente ao meu redor. Garrafas de bebida e um bartender impaciente. Tinha sido tudo um sonho. Minha âncora não era real, e nada me impedia mais de me afogar no oceano de desespero que me rodeava. Dei um último suspiro e deixei-me afundar.

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