segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Projeção

São cinco da manhã de um sábado qualquer. Ela está sentada em frente ao computador, com fones nos ouvidos e uma expressão confusa no rosto. Ao lado, na cama bagunçada, ele dorme de bruços, com uma expressão serena e o cobertor tampando metade do corpo. Ela veste apenas a calcinha e uma blusa dele, grande demais, a que estava mais perto das mãos quando tateou no armário (sentia frio, por isso estava vestida. No geral, nenhum dos dois usava roupas quando estavam sozinhos dentro de casa). Do nada, sente o corpo inteiro arrepiar em resposta ao leve toque na bacia e o beijo suave na omoplata, onde por baixo da blusa se esconde uma tatuagem que ele já decorou, de tanto apreciar. Ela sorri e afasta um fone, sorrindo. 
"Te acordei? Tentei digitar no maior silêncio possível, desculpa"
"Quantas vezes a gente vai precisar reforçar o pacto de não pedir desculpa à toa?"
"Desculpa" eles riem "acordei inquieta e vim trabalhar no TCC, mas não pretendia atrapalhar seu sono"
Ele puxa uma cadeira e se acomoda ao lado dela, primeiro encarando a tela e depois desviando o olhar para os olhos verdes (que ele um dia acreditou serem castanhos) que o encaravam com carinho. Apesar do sono que ainda sente, não resiste ao sorriso de cansaço que ela também exibe.
"Tudo bem, eu fiquei jogando videogame enquanto você dormia, porque você pegou no sono muito cedo e eu não tava cansado, então acho que estamos quites" e conclui a frase já aproximando a boca novamente do corpo dela. Toca a camisa com a ponta dos dedos e faz uma expressão engraçada com o rosto. "Frio?" Ela só assente. Ele ameaça afastar o tecido da pele, e olha para o rosto dela novamente, pedindo consentimento. Ela sorri e tira a camisa, seguindo o sinal para se aproximar do corpo dele e de lá pegar o calor necessário. Sente o cheiro familiar e mais uma vez se sente em paz.
"Você devia voltar a dormir. São seis da manhã" sussurra no peito dele.
"Cinco. E você não tá com sono, também?"
"Fiz café" o rosto dele se ilumina com a menção à bebida na qual ele fez com que ela se viciasse, também "e preciso terminar o texto"
"Você é apressada"
"Somos dois" ela o encara "e eu te disse uma frase parecida com essa há um tempo, na primeira vez que a gente saiu"
De alguma forma, a mesma lembrança invade as duas mentes, e eles não precisam verbalizar para saber que estão conectados. Um flashback do beijo na escada rolante do shopping, das risadas que seguiram e do início daquela relação passa como um filme para os dois.
"É que quando se trata de te amar, não consigo esperar"
E a explicação dele é suficiente para que nenhum dos dois precise mais se conter por um minuto. O papel da espera fica, dessa vez, destinado ao TCC ainda não concluído e à arrumação da cama, que se dificulta mais a cada momento de paixão.

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