Ela está sentada em um banco qualquer da praça perto de casa. Seus pensamentos voam pelas árvores, acompanhando seu olhar. O livro em suas mãos não prende sua atenção. Ela volta os olhos para a página e relê o mesmo parágrafo pela terceira vez. Suspira. Não absorveu nenhuma das palavras. Pega o celular e desbloqueia, ansiosa. Nada de novo. Põe as mãos no rosto, fechando o livro por um momento, e esfrega os olhos, como faz todos os dias quando acorda. Dessa vez, não precisa ser despertada. Está atenta para qualquer mudança no ambiente, mesmo sabendo que as chances de haver alguma são poucas. No momento, não se importa. No momento, se prende ao pouco de esperança que ainda tem. O celular vibra. Ela se sobressalta e dá um leve pulinho, ainda sentada. O telefone quase voa de suas mãos agitadas. Erra a senha duas vezes antes de conseguir desbloquear a tela com sucesso. Mensagem da operadora. Xinga o mundo, o universo e, por fim, xinga a si mesma. É claro que não ouviria dele tão cedo. Como pode ser tão estúpida, iludida? Suspira mais uma vez, frustrada. Volta para o livro, deixando o marca-páginas cair no chão. Ao se abaixar para pegar, vê uma sombra de relance. Seu cérebro imediatamente vai para a dedução mais óbvia: ele. Mas não era. A não ser que ele tivesse diminuído um metro e meio e agora fosse um esquilo. Revira os olhos, se xingando mais uma vez. Burra, burra, burra. Abre o livro novamente, tentando finalmente focar no conteúdo ali escrito. Lê aquele mesmo parágrafo pela quarta vez e, finalmente, começa a entender o que está lendo. Termina um capítulo. Está sorrindo. Não sabe se é por orgulho de si mesma ou pela piada boba que um dos personagens fez. Quase não sente o celular vibrar, mas sente. Pega o celular, descartando a possibilidade de ser ele. Já se contentou em não saber mais onde ele está. Desbloqueia e se assusta com o remetente da mensagem. Número desconhecido. Ela arqueia as sobrancelhas e espera pacientemente enquanto o processador do aparelho, que já não é mais tão bom quanto fora, faz seu trabalho. A tela muda. “O livro está divertido?”. Ela olha em volta, se forçando a bloquear qualquer presunção. Não quer se encher de esperanças à toa. A princípio, não vê nada. Até que ele surge em seu campo de visão. Ela não acredita. Como não é boba, no entanto, mesmo não acreditando corre para os braços dele. Paz. Só paz.
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